Na primeira sequência Wellington Oliveira está em sua casa preparando seu armamento, carregando os tambores de seus revolveres calibre 38. Por uma escolha estética, não iremos ver seu rosto, somente suas mãos e suas armas. Logo em seguida, Wellington escrevendo uma carta e o conteúdo será misterioso ao longo do filme.
Se o meu intuito fosse levantar as questões estéticas do filme, poderia dizer que inexplicavelmente e de forma totalmente equivocada, teríamos acabado de presenciar uma sequência de um evento futuro em relação aos eventos que passaríamos a presenciar em seguida, mas o foco desse texto é justamente outro, talvez imediatista, mas direcionado.
Acompanhando os noticiários e jornais neste sábado, dia 09 de abril de 2011, o foco central era o enterro das crianças vítimas do evento ocorrido em Realengo no Rio de Janeiro. Tamanha cobertura era esperada, como sempre o é diante das desgraças alheias. É o perfeito exemplo do interesse dos espectadores solidários ao pais das vítimas e ao sofrimento de cada ser humano envolvido.
Logo, foi inevitável lembrar-me dos filmes de Michael Haneke, quase todos (se não todos) em sua essência, principalmente dos breves “inserts” de noticias sobre guerras, violências, pontuando o contexto de seus personagens, a pressão que convivem e exigem suas escolhas.
E foi justamente ao me lembrar de Haneke que me dei conta de que, se por ventura esse evento recente fosse adaptado para as telas do cinema brasileiro, jamais, e enfatizo jamais, teríamos um filme sério, relevante e principalmente, um filme que exercesse a função de levantar questionamentos a respeito do que supostamente deveria ser levantado.
Obviamente não estou generalizando ou questionando a “qualidade” dos diretores brasileiros, mas talvez esteja tentando traduzir a revolta que sinto ao ver a forma como esse acontecimento é transmitindo para a população. Que tipo de informação é esta que pontua os locais onde os tiros atingiram suas vítimas. Que mídia é esta que publica fotos dos parentes das vítimas em desespero, pranto e agonia? E não acredito que o tratamento desse tipo de informação é exclusivo e genuinamente brasileiro, mas em escala global.
De que adianta a informação gratuita sobre o que era dito as vítimas se temos uma carta escrita pelo próprio realizador do crime a qual vamos ignorar, não levando em consideração suas palavras morais e a clara transparência do ele vinha sofrendo e onde encontrou e como canalizou a força para atuar dessa forma.
Mas a mídia questiona como o jovem conseguiu essas armas, como se fosse impossível de se olhar a facilidade de obtê-las em condições muito tranqüilas neste país. Não me importo, sinceramente, com quem forneceu essas armas a esse jovem. Realmente acredito que esta deveria ser uma preocupação em segundo plano, já que ele poderia ter entrado na escola com uma faca de cozinha, obviamente contabilizando menos vítimas, mas com a mesma intenção.
É com essa base que me pergunto quando o conteúdo da carta será analisado com cautela e virá a público toda a influência alienante, que beira a violência psíquica, que pessoas em condições como a de Wellington sofrem de determinadas instituições religiosas.
Mas alguém logo dirá que estou defendendo e tentando justificar o acontecimento, que estou atuando como um advogado de defesa. Se a acusação apontar que estou sendo frio e calculista, estarei completamente de acordo com que disser isso. Ou talvez não. Talvez a minha frieza ao encarar essa notícia seja um mecanismo de defesa da minha própria personalidade que, ao se deparar com a forma que as pessoas confrontam esse tipo de acontecimento com uma falsa solidariedade que soa asquerosamente como um “Olha, Deus, eu estou chocado e triste, não deixa isso acontecer comigo” e ignoram completamente os fatores que desencadeiam esse tipo de situação.
Não, não sou frio, não sou calculista. Estou simplesmente tentando apontar um fator moral que existe e que está cada vez mais presente na realidade das pessoas que buscam por ajuda e acabam recebendo um manual de conduta falido que se esconde friamente por trás de uma carcaça perigosa chamada religião.
Isso me leva a pontuar o que realmente é relevante pontuar nesse acontecimento. Quem era Wellington de Oliveira? 12 meninas assassinadas e 1 menino? O que levaria um ser humano do sexo masculino nascido no Brasil a matar tantas mulheres? A vitória da primeira mulher ao cargo de presidenta não isenta o machismo de um povo, assim como a vitória de um negro não isenta o racismo.
Estamos cada vez mais enfiados em um buraco moral que se auto alimenta das ilusões que os meios de comunicação promovem sobre comportamento, fazendo com que as noticias peçam hoje que você continue horrorizado com a pureza dos inocentes ao invés de apontar fatores que realmente permitam uma opinião crítica sobre eventos desencadeadores da violência humana.
E o que o cinema tem a ver com tudo isso? Qual a vantagem de apontar uma suposta leitura sobre um filme que (ainda) não existe. Talvez seja a forma de atestar a minha premeditação. Longo em breve as salas dos cinemas estarão lotadas para acompanharmos a vida de Wellignton de Oliveira sob o ponto de vista de um diretor que não terá a mínima delicadeza de construir uma narrativa isenta dos seus valores morais. Durante todo o filme estaremos diante da pureza das vítimas executadas naquele dia. Presenciaremos cada morte, cada tiro, cada grito de horror. No final existirá um herói. O herói que atirou em Wellington e evitou que mais crianças fossem assassinadas naquela manhã. Veremos os gritos de dor, o choro em câmera lenta. Sangue, muito sangue.
Ao fim da sessão eu estarei indignado, assim como estou hoje ao ver cada noticia de jornal, cada matéria televisiva e cada comentário solidário na rua de pessoas que alimentam esse tipo de informação. Estarei indignado com o que o cinema é quando esquecemos o seu principal papel.




