terça-feira, 19 de abril de 2011

Um olhar sobre um filme que (ainda) não existe.

Na primeira sequência Wellington Oliveira está em sua casa preparando seu armamento, carregando os tambores de seus revolveres calibre 38. Por uma escolha estética, não iremos ver seu rosto, somente suas mãos e suas armas. Logo em seguida, Wellington escrevendo uma carta e o conteúdo será misterioso ao longo do filme.


Se o meu intuito fosse levantar as questões estéticas do filme, poderia dizer que inexplicavelmente e de forma totalmente equivocada, teríamos acabado de presenciar uma sequência de um evento futuro em relação aos eventos que passaríamos a presenciar em seguida, mas o foco desse texto é justamente outro, talvez imediatista, mas direcionado.


Acompanhando os noticiários e jornais neste sábado, dia 09 de abril de 2011, o foco central era o enterro das crianças vítimas do evento ocorrido em Realengo no Rio de Janeiro. Tamanha cobertura era esperada, como sempre o é diante das desgraças alheias. É o perfeito exemplo do interesse dos espectadores solidários ao pais das vítimas e ao sofrimento de cada ser humano envolvido.


Logo, foi inevitável lembrar-me dos filmes de Michael Haneke, quase todos (se não todos) em sua essência, principalmente dos breves “inserts” de noticias sobre guerras, violências, pontuando o contexto de seus personagens, a pressão que convivem e exigem suas escolhas.


E foi justamente ao me lembrar de Haneke que me dei conta de que, se por ventura esse evento recente fosse adaptado para as telas do cinema brasileiro, jamais, e enfatizo jamais, teríamos um filme sério, relevante e principalmente, um filme que exercesse a função de levantar questionamentos a respeito do que supostamente deveria ser levantado.


Obviamente não estou generalizando ou questionando a “qualidade” dos diretores brasileiros, mas talvez esteja tentando traduzir a revolta que sinto ao ver a forma como esse acontecimento é transmitindo para a população. Que tipo de informação é esta que pontua os locais onde os tiros atingiram suas vítimas. Que mídia é esta que publica fotos dos parentes das vítimas em desespero, pranto e agonia? E não acredito que o tratamento desse tipo de informação é exclusivo e genuinamente brasileiro, mas em escala global.


De que adianta a informação gratuita sobre o que era dito as vítimas se temos uma carta escrita pelo próprio realizador do crime a qual vamos ignorar, não levando em consideração suas palavras morais e a clara transparência do ele vinha sofrendo e onde encontrou e como canalizou a força para atuar dessa forma.


Mas a mídia questiona como o jovem conseguiu essas armas, como se fosse impossível de se olhar a facilidade de obtê-las em condições muito tranqüilas neste país. Não me importo, sinceramente, com quem forneceu essas armas a esse jovem. Realmente acredito que esta deveria ser uma preocupação em segundo plano, já que ele poderia ter entrado na escola com uma faca de cozinha, obviamente contabilizando menos vítimas, mas com a mesma intenção.


É com essa base que me pergunto quando o conteúdo da carta será analisado com cautela e virá a público toda a influência alienante, que beira a violência psíquica, que pessoas em condições como a de Wellington sofrem de determinadas instituições religiosas.


Mas alguém logo dirá que estou defendendo e tentando justificar o acontecimento, que estou atuando como um advogado de defesa. Se a acusação apontar que estou sendo frio e calculista, estarei completamente de acordo com que disser isso. Ou talvez não. Talvez a minha frieza ao encarar essa notícia seja um mecanismo de defesa da minha própria personalidade que, ao se deparar com a forma que as pessoas confrontam esse tipo de acontecimento com uma falsa solidariedade que soa asquerosamente como um “Olha, Deus, eu estou chocado e triste, não deixa isso acontecer comigo” e ignoram completamente os fatores que desencadeiam esse tipo de situação.


Não, não sou frio, não sou calculista. Estou simplesmente tentando apontar um fator moral que existe e que está cada vez mais presente na realidade das pessoas que buscam por ajuda e acabam recebendo um manual de conduta falido que se esconde friamente por trás de uma carcaça perigosa chamada religião.


Isso me leva a pontuar o que realmente é relevante pontuar nesse acontecimento. Quem era Wellington de Oliveira? 12 meninas assassinadas e 1 menino? O que levaria um ser humano do sexo masculino nascido no Brasil a matar tantas mulheres? A vitória da primeira mulher ao cargo de presidenta não isenta o machismo de um povo, assim como a vitória de um negro não isenta o racismo.


Estamos cada vez mais enfiados em um buraco moral que se auto alimenta das ilusões que os meios de comunicação promovem sobre comportamento, fazendo com que as noticias peçam hoje que você continue horrorizado com a pureza dos inocentes ao invés de apontar fatores que realmente permitam uma opinião crítica sobre eventos desencadeadores da violência humana.


E o que o cinema tem a ver com tudo isso? Qual a vantagem de apontar uma suposta leitura sobre um filme que (ainda) não existe. Talvez seja a forma de atestar a minha premeditação. Longo em breve as salas dos cinemas estarão lotadas para acompanharmos a vida de Wellignton de Oliveira sob o ponto de vista de um diretor que não terá a mínima delicadeza de construir uma narrativa isenta dos seus valores morais. Durante todo o filme estaremos diante da pureza das vítimas executadas naquele dia. Presenciaremos cada morte, cada tiro, cada grito de horror. No final existirá um herói. O herói que atirou em Wellington e evitou que mais crianças fossem assassinadas naquela manhã. Veremos os gritos de dor, o choro em câmera lenta. Sangue, muito sangue.


Ao fim da sessão eu estarei indignado, assim como estou hoje ao ver cada noticia de jornal, cada matéria televisiva e cada comentário solidário na rua de pessoas que alimentam esse tipo de informação. Estarei indignado com o que o cinema é quando esquecemos o seu principal papel.


domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Aposta do Oscar

Acho que não sou um grande entendedor dessa premiação. E estou cada vez mais convicto que nos últimos dois anos (e muito provavelmente assim seguirá), com a vinda dos dez indicados a categoria principal, está cada vez mais difícil tentar buscar sensatez de quem realmente poderia ganhar o título de “Melhor Filme do Ano”. Entre as grandes apostas e os que tem grande chance de vencer – A Rede Social e O Discurso do Rei – eu realmente lamento muito essa restrição. Como verão, gostaria e muito que “Inverno da Alma” ganhasse, mas também, meu gosto pelo filme pode muito bem ser ainda um resquício de “resistência”. Não sei. Bom, segue a lista dos indicados. Os filmes em vermelho são os prováveis vencedores de hoje a noite. Os grifados são os meus favoritos da categoria.

Espero que gostem da lista, que se divirtam muito hoje a noite, e que eu erre quase todas as minhas apostas para vencedores, esperando, como última esperança, que uma gota de lucidez bata na Academia esse ano.

Melhor Filme
127 Horas
A Origem
A Rede Social
Bravura Indômita
Cisne Negro

Inverno da Alma
Minhas Mães e Meu Pai
O Discurso do Rei
O Vencedor
Toy Story 3


Melhor Diretor
David Fincher (A Rede Social)
David O. Russel (O Vencedor)
Darren Aronofsky (Cisne Negro)
Joel e Ethan Coen (Bravura Indômita)
Tom Hooper (O Discurso do Rei)

Melhor Atriz
Annete Benning (Minhas Mães e Meu Pai)
Jennifer Lawrence (Inverno da Alma)
Michelle Williams (Namorados Para Sempre)
Nicole Kidman (Reencontrando a Felicidade)
Natalie Portman (Cisne Negro)

Melhor Ator
Colin Firth (O Discurso do Rei)
James Franco (127 Horas)
Javier Bardem (Biutiful)
Jeff Bridges (Bravura Indômita)
Jesse Eisenberg (A Rede Social)

Melhor Ator Coadjuvante
Christian Bale (O Vencedor)
Geoffrey Rush (O Discurso do Rei)
Jeremy Renner (Atração Perigosa)
John Hawkes (Inverno da Alma)
Mark Ruffalo (Minhas Mães e Meu Pai)

Melhor Atriz Coadjuvante
Melissa Leo (O Vencedor)
Helena Bonham Carter (O Discurso do Rei)
Hailee Steinfeld (Bravura Indômita)
Amy Adams (O Vencedor)
Jacki Weaver (Reino Animal)

Melhor Roteiro Original
Christopher Nolan (A Origem)
David Seidler (O Discurso do Rei)
Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg (Minhas Mães e Meu Pai)
Mike Leigh (Another Year)
Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson (O Vencedor)

Melhor Roteiro Adaptado
Aaron Sorkin (A Rede Social)
Danny Boyle e Simon Beaufoy (127 Horas)
Debra Granik e Anne Rosellini (Inverno da Alma)
Joel e Ethan Coen (Bravura Indômita)
Michael Arndt, John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich (Toy Story 3)

Melhor Animação
Como Treinar Seu Dragão
O Mágico
Toy Story 3

Melhor Fotografia
A Origem
A Rede Social
Bravura Indômita
Cisne Negro
O Discurso do Rei


Melhor Documentário
Exit Through the Gift Shop
Gasland

Lixo Extraordinário
Restrepo
Trabalho Interno


Melhor Filme Estrangeiro
Biutiful (México)
Dente Canino (Grécia)
Em um Mundo Melhor (Dinamarca)
Fora da Lei (Argélia)
Incêndios (Canadá)

Melhor Montagem
127 Horas
A Rede Social
Cisne Negro
O Discurso do Rei
O Vencedor

Melhor Edição de Som
A Origem
Bravura Indômita
Incontrolável
Toy Story
Tron - O Legado


Melhor Mixagem de Som
A Origem
A Rede Social
Bravura Indômita
O Discurso do Rei
Salt


Melhores Efeitos Visuais
Além da Vida
Alice no País das Maravilhas
A Origem
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1
Homem de Ferro 2


Melhor Figurino
I Am Love
Alice no País das Maravilhas
Bravura Indômita
O Discurso do Rei
The Tempest


OBS: Não votei em todas as categorias. Ou não vi todos os filmes, ou simplesmente não tenho coragem de apontar um vencedor e um favorito devido a qualidade dos indicados.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

MELHORES FILMES DA DÉCADA (2001 - 2010)

Faz muito tempo que não escrevo. Pensei em algo que pudesse postar para reativar o blog. Não pensei em nada original. No caso: a lista dos meus filmes favoritos da década passada.

Resolvi escolher 20 filmes e organizei de forma decrescente.

Um ótimo 2011 para todos.

20 ° – A Criança | L’ Enfant (Jean -Pierre e Luc Dardenne)

19° - Ser e Ter | Être et Avoir (Nicolas Philibert)

18° - As Invasões Bárbaras | Les Ivasions Barbares (Denys Arcand)

17° - Fale Com Ela | Hable Com Ela (Pedro Almodovar)

16° - Caché | Hidden (Michael Haneke)

15° - Santiago (João Moreira Sales)

14° - Cópia Fiel | Copie Conforme (Abbas Kiarostami)

13° - Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças | Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Michel Gondry)

12° - O Labirinto do Fauno | El Labirinto del Fauno (Guillermo Del Toro)

11° - E Se Nada Mais der Certo (José Eduardo Belmont)

10° - Onde os Fracos Não Tem Vez | No Country For Old Men (Irmãos Coen)

9° - Ratatouille (Brad Bird)

8°– O Silêncio de Lorna | Le Silence de Lorna (Jean -Pierre e Luc Dardenne)

7° – Jogo de Cena (Eduardo Coutinho)

6° – Um homem Sério | A Serious Man (Irmãos Coen)

5° – A Vila | The Village (M. Night Shyamalan)

4° – Fonte da Vida | The Fountain (Darren Anorofsky)

3° – Anti Cristo | Antichrist (Lars Von Trier)

2° – A Fita Branca |Das Weisse Band – (Michael Haneke)

1° – Cidade os Sonhos | Mulholland Drive (David Lynch)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Ilha do Medo - Martin Scorsese

Os policiais Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo) estão chegando a Shutter Island. Sobre um pequeno barco saindo de um nevoeiro, Teddy está extremamente enjoado e diz frente a um espelho: é somente água, muita água. Esse mal estar é muito bem transfigurado na linguagem fílmica que Scorsese adota. Cada corte não respeita sua continuidade, muito menos a espacialidade, causando em nós a instabilidade daquela situação, daquele barco balançando cercado por água, muita água.

Tudo é somente a apresentação da instituição psiquiátrica na qual desembarcarão e que convocou estes dois detetives para resolverem o caso do desaparecimento de Rachel, uma interna que matou seus três filhos afogados em um lago atrás de sua casa.

Durante as investigações, Teddy começa a desconfiar de todos os envolvidos no funcionamento da instituição. Ele precisa descobrir o que aconteceu com esta mulher, mas sente que tudo conspira contra, principalmente a partir do momento em que começa alucinar após tomar uma aspirina cedida pelo diretor da instituição (Bem Kingsley).

Suas alucinações são os bons momentos do filme (talvez os melhores). O clima construído exige um pouco do espectador. Nos rompimentos de diálogos e do espaço físico e a aparição de novos personagens. Tudo caminha bem durante as duas horas e dezoito minutos de filme se não fosse o fato de já “termos desvendado” o mistério principal nos primeiros “30 minutos de exibição” desta narrativa transbordada de receitas desgastadas no gênero.

Talvez a fórmula de Scorsese não fosse apostar na “surpresa” final. Mas, a partir dessa desconfiança que surge logo no início, ele condena os fatos à linearidade, sendo construídos justamente para justificar cada elemento apresentado, principalmente nos últimos 20 minutos, onde o excesso de justificativas dos fatos é esmiuçado para proporcionar a sensação de satisfação aos expectadores.

Não estamos diante de Scorsese. Nada de “Touro Indomável” (ok, forcei a barra.), ou “’Taxi Driver” (forcei mais ainda), muito menos da pressão psicológica de “Cabo do Medo” (mais adequado). É um filme auto-explicativo que desrespeita seu expectador que talvez (ou não) ainda possua o mínimo de raciocínio pra poder acompanhar uma narrativa linear como essa.

Mas esse não é um problema somente que gira em torno do universo deste novo filme de Scorsese: o cinema talvez esteja se adaptando ao seu público atual. Como exemplo é só ver os 10 indicados ao Oscar desse ano, salvo exceções como “Um Homem Sério” dos Irmãos Coen e “Bastardos Inglórios” de Quentin Tarantino.

sábado, 3 de outubro de 2009

Anticristo - Lars Von Trier

O que mais escuto a respeito de "Anticristo" de Lars Von Trier é a relação com a depressão que o diretor vivia durante o processo de criação do roteiro e de suas filmagens. Outra questão que pontuo é a série de argumentos que se fundem como desculpas para não se aprofundar em sua temática; "existe um leque de interpretações para esse filme", "Lars Von Trier era mais interessante quando não estava preocupado em se reinventar a todo o momento", "a violência presente no filme é desnecessária", entre outros que o acusam de canastrão e até mesmo, sendo um dos comentários mais irracionais e cegos, misógino. Além daqueles que somente reafirmam comentários feitos pelo próprio diretor de forma inocente.

Começo pontuando cada opinião dessas.

O processo de um filme somente está finalizado quando chega aos olhos do público. Seja qual for o filme, ele sempre vai deixar um leque de interpretações, já que esse "olhar" é quem vai finalizar o processo de comunicação. E essa interpretação estará sujeito a toda a bagagem e vivencia desse indivíduo de forma muito particular.

Uma das primeiras lições nas escolas brasileiras de cinema, é que não existem mais histórias a serem contadas e sim formas diferentes de serem contadas. Partindo deste raciocínio, o que há de tão errado nas tentativas de Lars? Existem muitos incômodos na forma em que ele estrutura seu filme e sua narrativa, mas talvez esse seja o seu lado inventivo, que o caracterize como um diretor autoral e livre das acusações do público – já que ele afirma fazer filmes para si mesmo. Mas eu discordo desse raciocínio. Na verdade também só estou contrariando quem critica suas tentativas de ser “inovador”.

Se o objetivo fosse resumir a temática do filme Anticristo em somente uma palavra, essa palavra seria "Castração". É esse o foco que o diretor busca explorar: o terror psicológico existente nas relações humanas devido aos costumes e práticas cotidianas da sociedade, não diretamente tratando da modernidade, e sim, referente aos reflexos históricos. O filme realça o horror vivido por mulheres inocentes, dando destaque para o século XVI, período de maior intensidade no movimento de caça as bruxas que se perpetuou por quase cinco séculos. Tudo o que acontece frente aos nossos olhos está mais do que justificado e objetivamente, nunca sendo moralista, nos coloca em uma posição de desconforto constante, já que é muito clara a possibilidade de inconscientemente passarmos a nos identificar com seus personagens.

E essa identificação não se constrói de forma pejorativa. A tentativa de Lars é explorar o que uma simples relação entre as pessoas, dentro do que a sociedade nos propõe e dentro daquilo que é dito aceitável, nos proporciona psicologicamente. O que perdemos da nossa natureza ao aceitar esses códigos de conduta e o que isso pode resultar, não talvez como no filme que acontece em uma realidade concreta, mas em um patamar interior; uma briga constante diante do contraste do desejo e do permitido.

No filme, a personagem principal, por ter perdido seu pequeno filho em um momento em que se entregava a seu prazer sexual, entra em uma profunda depressão. Esse é um dos maiores pontos do filme para construir essa lógica da culpa e do estar sendo castrado. Assim como a atitude do marido, psicólogo muito prepotente por ter assumido o tratamento de sua esposa, continuando a prender cada vez mais a mulher aos seus preceitos. São pequenas as atitudes contidas no decorrer das suas conversas. O descaso do marido com muitas coisas que a mulher tenta expressar. O tom de arrogância no qual ele sempre assume quando rebate os argumentos da mulher. A forma de expressar ser superior a qualquer outro raciocínio estabelecido, seja por ela ou pelo seu médico.

Em paralelo a esse caso, Von Trier dá indícios de que a natureza seria o anticristo do título. Representada pelo Éden ao qual eles viajam para fazer o tratamento da mulher e como sendo o lugar de origem de seus medos. É o retorno de Adão e Eva para o jardim do paraíso.

Ela, criada de uma costela dele, dá início ao subestimar histórico. Dá início aos argumentos para o controle e a castração da mulher. E é lá que a mulher do filme põe à tona a dor desse silêncio.

Mas o homem em sua representação, não está sendo acusado diretamente como o culpado por esse controle. O personagem de Willian Dafoe desconhece os verdadeiros motivos do ódio que sua mulher alimenta por ele. Quando ele busca racionalizar a situação e encontra a resposta como sendo ele o causador de todo esse ódio concentrado em sua mulher, a surpresa imediata é desse personagem, e não do público que já desenvolveu essa linha de raciocino.

Talvez aqui esteja implícito o processo terapêutico de Lars Von Trier. A psicologia em seu puro estado, mas não da forma que venha a reconfortar e sim apontar onde está esse anticristo do título. E é através dessa psicologia, que não tem nada de barata, que recebemos um dedo apontado em nossa cara dizendo o quanto é falida a lógica da nossa sociedade e principalmente nossos princípios morais.

E daí parte a minha pergunta. Onde está a visão misógina nessa história toda? Onde está a violência não justificada?

Talvez todos esses equívocos estejam principalmente na cabeça dos ditos críticos que não conseguem enxergar um palmo a frente do seu nariz, e temem o fato de, talvez sim, Lars Von Trier ser o melhor diretor do mundo.

sábado, 4 de julho de 2009

Eden Log - Franck Vestiel

O Primeiro Festival de Cinema Fantástico de São Paulo premiou “Eden Log” como melhor filme na categoria Internacional. Embora não concorde com a escolha do júri, o filme não somente se cumpre como sendo de categoria fantástica, termo que repetirei bastante ao longo do texto, mas também como uma ficção científica perfeitamente executada e que se destaca pelo seu baixo custo. Os outros concorrentes possuíam suas particularidades, seja no excesso de sangue, seja na comédia, ridicularização, mas eram bons filmes e cumpriam muito bem suas propostas.

O destaque era “Deixe Ela Entrar”, que, na minha opinião, é muito superior aos outros filmes apresentados, tanto na categoria Internacional quanto na Ibero Americana, mesmo não sabendo como criar parâmetros para compará-los. Apenas prefiro.

“Eden Log” começa com uma sequência muito interessante. Um homem se levanta em meio a um lodo. Não conseguimos inicialmente definir o que está acontecendo. São cortes freqüentes que nos colocam na posição do personagem que somente vê devido a uma luz branca cintilante que o guia e nos apresenta fragmentos do que é aquele lugar. O corte segue essa lógica. O som é sua respiração ofegante.

Ele está em uma caverna e, aos poucos, passa a controlar aquela fonte de luz, seguindo em diante, passando a remeter ao clima claustrofóbico do filme “Cubo”, a lógica narrativa dos jogos RPG´s, e os obstáculos como sendo nada mais do que mutações genéticas (nesse caso não precisamente genéticas) semelhantes a Resident Evil e Silent Hill.

E isso funciona, já que em nenhum momento foge de seu objetivo filosófico para se cumprir como um filme de gênero, fator comum em quase todas as produções exibidas no festival.

“O Proprietário”, de Javier Diment e Luis Ziembrowski, filme que competia na categoria Ibero Americana, é um exemplo claríssimo do quanto um diretor pode não ter controle do que está fazendo – ou de que talvez até tenha.

Detentor de uma trama psicológica incrível, onde, aos poucos, passávamos a estar no ponto de vista de um observador sinistro, mudo e com olhares introspectivos, acaba por somente se cumprir como mais um filme trash barato ao não se assumir como um suspense.

Medo? Acredito que não. Inexperiência? Talvez, mas acredito que exista uma áurea que está em meio a produtores do gênero que agem de forma a apenas se auto-afirmarem. Custe o que custar. É o preço a se pagar ao defender um cinema não tão difundido, e que necessita cada vez mais de apoios como o I SP TERROR.
Voltando à tentativa de digerir a vitória de “Eden Log”, declaro que a forma que encarava a fita em seu desenrolar não era a mais propicia, justamente pelo ritmo que vinha dos outros filmes do evento. Mas isso me levou a pesquisar e tentar encontrar referências ou ser mais direto e explorar o passado do diretor Franck Vestiel.

Foi um processo complicado. Diretor estreante. Referências quase zero. Um filme francês de baixo orçamento que, embora tenha estado presente em alguns festivais, teve repercussão muito pequena, o que dificulta encontrar outros textos ou materiais conectados ao filme.

A solução foi assistir pela segunda vez e finalmente começar a juntar algumas peças. O que antes parecia um quebra-cabeça, logo fez muito sentido. É um filme sobre um futuro indefinido, mas muito bem embasado no que representa e no que poderá vir a ser o preço a se pagar pelos interesses mercadológicos e as lógicas sustentáveis vigentes da sociedade moderna.

Devido à febre “verde” em que o mundo vive, criei certo preconceito aos primeiros desenrolares da trama de Eden Log, já que muitas vezes os filmes que abordam essa temática acabam por se tornarem pragmáticos e se perdem em discursos moralistas superficiais. Nada disso.
O filme ainda respeita seus limites. Sabe o ponto exato de se utilizar um personagem que não enxerga o todo no qual está envolvido. Sabe que não tem como função “trazer mensagens” ao público e, principalmente, que não é interessante tornar-se panfletário.

É um filme que se cumpre filosoficamente, uma oportunidade de singela reflexão. Um elenco pequeno que predomina quase todas as cenas, tomadas de câmera na mão com uma decupagem respeitosa, digna de grandes filmes de ação. E o mais importante, extremamente funcional.

Para aqueles que não conferiram Eden Log na I Mostra de Cinema Fantástico de São Paulo, provavelmente não terão uma oportunidade tão próxima. O Filme não tem data de estréia prevista e, provavelmente, caso venha a ser lançado no Brasil, estará sendo diretamente enviado para as locadoras.

É um ótimo filme, embora eu ainda acredite piamente que “Deixe Ela Entrar” é muito superior, seja lá em quais quesitos forem.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Deixe Ela Entrar - Tomas Alfredson

Nada me faz acreditar hoje que existam filmes classificados como “terror” que mostrem sua competência, com raríssimas, quase nulas, exceções. Em São Paulo teve inicio nesta quinta-feira (25/06/09) o primeiro Festival Internacional de Cinema Fantástico, e o tão falado “Deixe Ela Entrar”, de Tomas Alfredson, que somente fora exibido na Mostra de Cinema de São Paulo no ano passado, voltou para esta semana especial.

O filme é sobre o jovem Oskar que vive em Estocolmo. Na escola, está sempre sendo agredido por outros alunos; em sua casa, vive distante do pai e sempre ao lado da mãe, que ora se demonstra carinhosa, ora está com os nervos à flor da pele. Não por acaso.

Começou a ocorrer uma série de estranhos assassinatos onde as pessoas são encontradas degoladas e com seu sangue extraído. Ao mesmo tempo, Oskar encontra Eli, uma estranha jovem que aparenta também ter seus 12 anos de idade e vive no apartamento ao lado. É desse encontro que temos o ponto de partida para o que há de mais interessante no filme.

Estamos frente a um filme de gênero que, mesmo tratando-se de produção em larga escala, atuando geralmente como caça-níqueis, inova ao explorar a delicadeza da relação entre Oskar e Eli, não pelos maneirismos, mas devido à particularidade que nos remete muito àquela cidade fria que parece fazer parte do ritmo de vida das pessoas.

Explorando o tripé amizade-paixão-necessidade, no contraste entre uma fotografia limpa e branca, e o silêncio, temos um filme superior. Não em relação somente a outros do gênero, mas dentro de si mesmo. Seu desenvolvimento nos leva a uma resolução que pode ser vista como banal, mas, ao meu ver, enriquece o filme, pois se tentasse mostrar outro lado da moeda, aí sim cairíamos em velhos contos milhões de vezes exibidos em salas de cinema.

O filme não foi lançado oficialmente no país e não existe data prevista para que isso aconteça. A sua única oportunidade é aproveitar a ultima exibição no Festival Internacional de Cinema Fantástico ou por métodos alternativos, visto por muitos como suspeito. Escolha a sua forma de conferir este filme e veja sem culpa. Simplesmente veja.
Para quem quiser ler mais sobre o filme: http://erickmartorelli.wordpress.com/